Episódios da História da Índia Portuguesa. Condutas Exemplares

Em meados de Março de 1821, depois de ter chegado a Goa a notícia do sucesso da revolução liberal de Agosto de 1820, algumas das principais figuras movimentaram-se no sentido de depôr o Vice-Rei, D. Diogo de Sousa, I Conde de Rio Pardo, e de instaurar a nova ordem. Conseguido o apoio dos chefes militares, as tropas sairam dos quarteis, na madrugada do dia 16 de Setembro de 1821, com o objectivo de cercar o palácio do Vice-Rei.
No meio de vivas à Constituição e de grande alvoroço, os Marechais Joaquim Manuel Correia da Silva e Gama e Manuel Godinho de Mira e os Desembargadores Manuel Duarte Leitão e João Maria de Abreu Casttelo Branco, futuro I Visconde de Fornos de Algodres e o Fisico-Mor António José de Lima Leitão, acompanhados por um troço de granadeiros, comandados pelo Tenente Manuel Francisco Correia, filho do Marechal Correia da Silva e Gama, forçaram a entrada do palácio e dirigiram-se ao Vice-rei na qualidade de representantes do povo e das tropas.
O Vice-rei, fardado de Tenente General, encontrava-se na sua câmara, com as portas abertas, acompanhado pelo seu Ajudante, o Tenente Francisco Diogo Velez.
O Desembargador Manuel Duarte Leitão tomou a palavra, dizendo ao Vice-Rei que o país queria a Constituição que, como era público, a Nação portuguesa proclamara e o Soberano aceitara. O Conde respondeu-lhe, em tom moderado, que ignorava as mudanças políticas no Reino e que Sua Magestade de nada lhe dera conhecimento. Os conjurados , endureceram, então, a posição, replicando que o povo e a tropa estavam pela Constituição e que o seu governo acabara.. O Conde Vice-Rei, impertrubável, disse apenas: " Neste caso, eu nada tenho que dizer".
Propuseram os conjurados que o Conde se recolhesse ao Convento do Cabo, ao que este contrapôs ficar numa casa em Pangim, onde se devia instalar, provisóriamente,  o seu sucessor, o qual se aguardava para breve. Os revoltosos não aceitaram tal e , encurtando razões, decidiram que o Vice-Rei fosse imediatamente conduzido ao Convento do Cabo.
Transportado na "machila" do Marechal Godinho, o Conde foi escoltado por uma guarda de 30 soldados, comandados pelo então Tenente da Legião dos Voluntários Reais de Pondá, José Xavier de Azevedo.
Durante o percurso, o Tenente Tomé Peres, querendo saber quem era a pessoa que ia escoltada, bateu com a mão por baixo da "machila" e, reconhecendo o Vice-Rei, exclamou: "Levem com segurança este bicho". D. Diogo, em tom grave, mas calmo, retorquiu: "Vai bem seguro"!
Quando chegou ao Convento do Cabo, o Conde tirou da algibeira um valioso relógio de ouro com cadeia e ofereceu-o ao Tenente José Xavier de Azevedo, elogiando-o pela sua conduta irrepreensível no comando da escolta. Pediu depois a Frei Constantino de Santa Rita, guardião do Convento e seu fiel amigo, que lhe emprestasse 100 rupias, que ordenou fossem distribuídas pelos soldados.
Acrescento, por mera curiosidade, que José Xavier de Azevedo teve uma notável carreira militar, falecendo no posto de Coronel do Exército do Estado da India, tendo casado com Maria Angélica de Azevedo Queiroz, com larga geração na qual se inclui o autor destas notas, seu trineto.
O acima referido Tenente Manuel Francisco Correia da Silva e Gama casou com Maria Helena Possolo, com descendência que toca muitas famílas actuais, entre as quais a dos Condes de Mahem. Esta Maria Helena era irmã de outro meu trisavô paterno, António Frederico Guilherme Germack Possolo, Major Comandante da Praça de Diu, casado com Genoveva Cabral de Estefique, filha do Coronel João Cabral de Estefique, Governador de Macau, Membro do Conselho de Governo da India e Governador de Damão.
O Conde de Rio Pardo, neto da grande figura militar que foi o I Marquês de Minas,  não teve filhos, tendo o título passado a seu irmão, em cuja descendência se mantem a respectiva representação. Luis Bivar de Azevedo

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